Limites & Consequências | Mikaela Övén https://blog.mikaelaoven.com Heartfulness & Parentalidade Consciente Mon, 22 Jan 2018 10:20:16 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://blog.mikaelaoven.com/wp-content/uploads/2017/11/cropped-MO_Simbolo_FullColor-32x32.png Limites & Consequências | Mikaela Övén https://blog.mikaelaoven.com 32 32 O meu filho tem muita personalidade! https://blog.mikaelaoven.com/filho-muita-personalidade/ Mon, 22 Jan 2018 10:18:24 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/?p=15243 “O meu filho tem muita personalidade!” É mesmo verdade, ou desculpa de pais para filhos mal comportados?

Ter muita “personalidade” ou o famoso “ele é mesmo assim” podem ser desculpa para tudo? Ou não há personalidade que se sobreponha a pais mal preparados no que toca a pedagogia? Cada vez mais a sociedade se interessa por compreender melhor os mais pequenos e os gatilhos que causam aquilo a que chamamos “mau comportamento” ou “má educação”. Qual a origem? Estará nas crianças e na sua “personalidade” – ou nos pais? O Delas.pt quis aprofundar o assunto e falou com duas especialistas em comportamento infantil que esclarecem todas estas dúvidas, e ainda dão dicas para melhorar a relação com os seus filhos – e, consequentemente, atenuar ou acabar com os problemas diários de comportamento.

O que é, afinal, um “mau comportamento”?

Comecemos pelo princípio! Mikaela Övén, fundadora da Academia de Parentalidade Consciente e autora de diversos livros sobre o tema, afirma que esta é uma questão muito relativa. “O que eu sei é que há comportamentos do meu filho que me irritam, ou que não me dão jeito nenhum. Mas se eu perceber que todo o comportamento existe para satisfazer uma necessidade da criança, não tenho de dizer que é um «mau» comportamento. É simplesmente um comportamento, uma consequência. Como mãe, o importante é perceber que tipo de comportamento mexe comigo e ultrapassa os meus limites. Mas antes tenho de assegurar que os meus filhos têm os recursos necessários para terem o comportamento que eu espero deles. Não é só «dar-lhes na cabeça», e dizer que têm uma má personalidade. Isso não ajuda ninguém, não capacita, nem dá competências à criança.” A especialista acredita que a maioria das crianças, atualmente, vive em constante défice de sono e que isso influencia negativamente o seu comportamento. “A criança não tem recursos para se portar bem (eu não gosto muito destes termos, «portar bem» ou «mal», mas para ser mais simples e me fazer entender, vou recorrer a eles). Para eu me portar bem tenho de me sentir bem. E muitas vezes as nossas expectativas em relação ao comportamento da criança não estão adequadas aos recursos que ela tem. Não sei se os pais culpam a personalidade dos filhos como desculpa, ou por desconhecimento. Há muitos pais que não se querem pôr em causa no que diz respeito ao comportamento dos filhos, então é fácil dizer que é da sua personalidade. Mas se eu contar as horas de sono que o meu filho tem, vou perceber que talvez ele tenha défice de sono. Então não é a personalidade, é sono! Ou pode ser uma criança cujas necessidades emocionais não sejam satisfeitas, sejam elas quais forem, ou que lhe falta organização, rotina, estrutura, controlo, segurança, e essa criança vai obviamente reagir com mau comportamento.” Mikaela acredita que é parte das competências dos pais “ativar o detetive” neles mesmos e perceber, afinal, o que se passa com o filho, e se as suas necessidades básicas fisiológicas e emocionais estão a ser satisfeitas. “Eu diria que em 99% dos casos não estão. Uma criança que tem recursos para se portar bem, vai portar-se bem”, afirma Mikaela Övén.

Dar limites implica definir e aplicar regras claras e adaptadas a cada fase do crescimento, regras que a criança possa compreender e respeitar de acordo com o seu nível de maturidade, com maior ou menor dificuldade de pôr em prática, conforme as características da sua personalidade

Ana Rita Botelho Moniz Dias, Psicóloga e especialista geral em Psicologia da Saúde e especialista avançada de Psicoterapia e Intervenção Precoce, defende que se “considera mal comportada uma criança que adota um comportamento desadequado a determinada situação social. Quando se classifica um comportamento como desadequado/desajustado, temos de ter em consideração determinados fatores, tais como a idade da criança e a eventual existência de deficiência ou patologia. Não será estranho assistir a uma birra numa criança de aproximadamente 3 anos. Regra geral os comportamentos desajustados acontecem inicialmente quando a criança ainda tem dificuldade em comunicar e não consegue transmitir as suas necessidades, e/ou posteriormente quando é contrariada.”

O meio-termo marca o equilíbrio

Ana Rita Botelho Moniz Dias acrescenta que existem vários modelos e estilos parentais, desde os autoritários, rígidos, permissivos, tolerantes, entre outros. “Os modelos parentais mais adequados respeitam as necessidades da criança de forma flexível, tolerante e protetora, dão regras e limites, integram a família alargada, respeitando valores e tradições, dedicam tempo de qualidade aos seus filhos e respeitam a opinião de todos os profissionais que prestam cuidados à criança. Crescer é difícil para pais e filhos, sendo que introduzir a frustração é sempre uma tarefa difícil, mas que se reveste de uma importância primordial no processo de crescimento. Uma criança que não experimenta a frustração e não respeita os limites da realidade vai crescer sem organização interna, com um «Eu» fragilizado e com dificuldades no processo de integração na sociedade. Não vai ser capaz de respeitar o outro na sua dimensão familiar e social”, afirma a psicóloga.

Eu e o meu filho temos iguais direitos de exprimir as nossas emoções, necessidades, opiniões… Exprimi-las é uma coisa, outra é fazer o que se quer e bem entende. Aí está o limite. Eu não quero que o meu filho me bata, não quero que ele grite no restaurante, nem que ande debaixo das mesas.

Mikaela Övén refere que, entre o controlo excessivo que retrai a criança e a permissividade total que não impõe limites, há uma terceira via, onde reside a fórmula mágica. “Chama-se parentalidade consciente. Existem limites pessoais para todos. Quais são os meus como mãe? E quais são os limites pessoais do meu filho? É isso que tenho de comunicar. E tenho de ajudar o meu filho a perceber que, por exemplo, há pessoas no restaurante onde estamos a almoçar que também têm os seus próprios limites pessoais, que eu quero que ele respeite. O que acontece, muitas vezes, é que quem se quer livrar dessa parentalidade mais tradicional da mãe e do pai «a mandar», parece que vai para o extremo oposto. Coloca a criança no centro, o que é errado. Uma criança que está sempre no centro do circulo não se sente parte do todo. E nós, humanos, queremos sentir-nos parte do grupo. Se eu, como criança, não sentir isto, pode despoletar em mim o mau comportamento. Porto-me mal e não tenho ninguém que me ponha travão. Eu acredito no igual valor e algumas pessoas demasiado permissivas não entendem o que significa. Eu e o meu filho temos iguais direitos de exprimir as nossas emoções, necessidades, opiniões… Exprimi-las é uma coisa, outra é fazer o que se quer e bem entende. Aí está o limite. Eu não quero que o meu filho me bata, não quero que ele grite no restaurante, nem que ande debaixo das mesas. Ele tem o direito de exprimir o seu aborrecimento, mas eu como mãe também tenho o direito de exprimir o que sinto naquela situação. Agora, preciso de avaliar se posso ter a expetativa de o meu filho ficar sentado ou não à mesa. Aí, tenho de perceber: se eu quiser ficar mais uma hora no restaurante, que estratégia devo usar? Se calhar o ideal é encurtar o tempo do almoço para respeitar as necessidades do meu filho. Assim, é um compromisso de ambas as partes. Ambos cedemos para que todos fiquemos satisfeitos, sem prejuízo de terceiros”, explica Mikaela. A especialista em parentalidade consciente adverte, no entanto, que mal a criança se sinta manipulada, vai boicotar toda a estratégia. “Imaginem: eu quero que o meu filho se porte bem. Só que a minha intenção, em primeiro lugar, tem que ser sempre ver o meu filho, e conectar-me com ele. E ele tem de sentir isto. Mal ele sinta que eu só quero que ele se porte bem para poder comer descansada, que só tenho o meu benefício em consideração e só quero que ele me obedeça, vai boicotar a situação e portar-se ainda pior.”

A psicóloga Ana Rita B. M. Dias explica que dar limites implica definir e aplicar regras claras e adaptadas a cada fase do crescimento, regras que a criança possa compreender e respeitar de acordo com o seu nível de maturidade, com maior ou menor dificuldade de pôr em prática, conforme as caraterísticas da sua personalidade. “Crianças mais afirmativas, com maior rigidez defensiva, têm mais dificuldade em aceitar limites, mas estes podem e devem ser igualmente colocados com clareza, firmeza e continuidade. Sempre que os limites são claramente assumidos e são considerados como um valor para a família, as crianças vão aceitá-los e integrá-los progressivamente na sua vida. Dar o exemplo, não abusar de castigos e regras rígidas dificilmente realizáveis, não usar a força física, são regras de ouro de uma educação que respeita a criança”, segundo a especialista.

Reagir às birras em público

“Uma vez o meu filho, aos 2 anos, teve um meltdown num shopping. Eu sabia que ele estava muito cansado e com fome, só que o cansaço fazia com que ele nem conseguisse dizer-me o que queria comer. E resultou numa gigantesca birra. As pessoas que nos observavam obviamente não sabiam o que se passava. E também não sabiam que o meu filho tinha estado sem mim o dia todo. O meu filho tem muita necessidade segurança e controlo, e não tinha sido informado de que íamos comer ao shopping. Felizmente estava com o meu marido, ele colocou-o debaixo do braço, a espernear, levou-o para o carro, eu fui comprar comida, e fomos embora. Esta cena foi total responsabilidade nossa, pais, porque não estavam satisfeitas as necessidades do meu filho. Justificou-se a força do pai de pegar nele e levá-lo embora, porque precisava de um espaço emocional e fisicamente seguro. Nestas situações há que ignorar totalmente as outras pessoas, e só conectar-me com o meu filho. Se elas acham que eu devo dar uma palmada, isso é problema delas – é um recurso ao qual não quero recorrer. Aliás, nestas discussões eu nem entro porque não vale a pena”, conta-nos Mikaela Övén. A especialista acredita que, como terceiros, podemos sempre oferecer ajuda, sem julgar. “Se a pessoa recusar ou reagir mal, e normalmente é o que acontece, pelo menos tentámos. Sei que é difícil não julgar alguém que bate no filho no meio de um shopping, mas temos de fazer um esforço e perceber qual será a melhor forma de ajudar, sempre com compaixão.”

O desafio da autoridade

Há idades em que o comportamento de oposição é uma caraterística, como por exemplo a “fase de oposição” que surge entre os 2 e 4 anos de idade, e posteriormente no início da adolescência, segundo Ana Rita Botelho Moniz Dias. “Também há crianças que são mais afirmativas por caraterísticas de personalidade, mais desafiadoras, e para essas será igualmente importante manter clareza e firmeza na aplicação das regras. Não deve haver lugar a cedências ou condicionamento de comportamentos por chantagem emocional ou material. Também não é correto punir fisicamente uma criança: inibe o comportamento por imposição e medo, sem compreensão, e pode ter consequências graves inesperadas para a vida da criança, traduzindo igualmente a incapacidade do adulto em lidar com a situação. De acordo com a idade, deve haver sempre uma forma de repreender uma criança por um comportamento desadequado, e a repreensão deve ser ajustada à idade e ao nível de gravidade do comportamento. Uma criança deve ser ajudada a respeitar o outro e o espaço exterior, deve ser ensinada que não pode agredir o outro, assim como não pode deteriorar objetos. A capacidade de compreensão dos seus atos vai sendo gradual desde o nascimento. Uma criança no primeiro trimestre de vida sabe exprimir as suas necessidades e começa a integrar horários e rotinas. A partir dos 2 anos a criança já compreende as regras. Progressivamente vai tendo a noção das consequências dos seus atos e a perceção de que tem comportamentos desadequados”, explica a psicóloga.

Mikaela Övén considera que uma das tarefas dos filhos é precisamente desafiar os pais. “Quando há pais que recorrem à minha ajuda e me dizem que não castigam os filhos, que fazem tudo de acordo com a parentalidade consciente, eu percebo que não, não estão. Estão apenas a ser permissivos e a esquecer-se de si mesmos. Respeitam os filhos, mas não a eles mesmos. Crianças que desafiam muito estão um bocadinho à procura de limites. Querem perceber quem são os pais, que por vezes se escondem atrás de pedagogias. Há que perceber onde ficam os meus limites pessoais e comunicá-los, antes de entrar no ponto de rutura e cair no erro das palmadas”, afirma Mikaela. Há também grandes diferenças entre a parentalidade mais tradicional, a parentalidade muito permissiva e a parentalidade consciente, que Mikaela muito simplesmente define desta forma: na parentalidade tradicional há um circulo e a criança está fora dele – só fará parte dele caso se comporte de certa forma; na parentalidade permissiva a criança está no meio do circulo – também não faz parte do mesmo, todos gravitam à sua volta, toda a logística depende dela; e na parentalidade consciente há um circulo que inclui todos, com igual importância, sendo que, claro, os pais detêm mais responsabilidade.

Ana Rita B. M. Dias corrobora esta teoria, e acrescenta que “A criança deverá ocupar o seu lugar na família, que será respeitado da mesma forma que o de qualquer um dos outros elementos que a compõem. Certo é que também não compete à criança implementar regras ou estabelecer prioridades na vida familiar. Quem estabelece as regras deverão ser os adultos responsáveis, regras que respeitem todos os elementos que compõem a família no que diz respeito às suas caraterísticas físicas e psicológicas. Uma família organizadora para uma criança deve ter uma hierarquia em que cada um tem a sua função e papel claramente definidos, e todos são respeitados.”

Reverter “reizinhos”

Como podem os pais reverter uma situação em que a criança está no centro do circulo, em que controla a gestão familiar? Mikaela Övén aconselha. “Os pais têm de definir as suas intenções. «Quem quero ser como mãe?» – e não «quem quero que o meu filho seja». Se o meu filho estiver a ser desafiador e desrespeitador, e eu quero que ele seja mais respeitador, então tenho de pensar em quem tenho de ser para o meu filho adquirir esta competência. Talvez tenha de me respeitar mais a mim mesma, para poder respeitar também o meu filho. Quando eu ponho de lado todas as minhas necessidades a favor das necessidades do meu filho, estou a praticar o desrespeito. Estou a demonstrar ao meu filho que não faz mal desrespeitar-me. Também se exige mais empatia. Depois há que perceber quem é o meu filho, quais são as suas necessidades, e se elas estão a ser preenchidas (aquilo de que já falámos). O comportamento nunca é um problema, é sim uma solução para o problema, a que a criança arranjou inconscientemente para preencher uma necessidade. Não quero corrigir comportamentos, quero primeiro satisfazer necessidades. E aí o comportamento deixa de existir e de fazer sentido.”

A psicóloga Ana Rita B. M. Dias considera que “seguramente, uma criança a quem não foram dadas regras e limites vai ter sérios problemas ao longo da sua vida. Inicialmente vai ter dificuldade na integração no grupo de pares, dificilmente vai ser respeitada e desejada para uma partilha de experiências e jogos em grupo, experiências tão importantes e organizadoras para o seu desenvolvimento. Vai ser um adulto com dificuldade em estabelecer as suas próprias regras na sua vida futura social e familiar.” A especialista recomenda aos pais que incluam a criança, conforme o seu grau de desenvolvimento, em determinadas tarefas em prol do bem-estar familiar. “Participar na gestão doméstica, tal como ajudar nos momentos das refeições, na limpeza e manutenção da casa, apoiar os mais dependentes, etc., são tarefas que devem estar sempre presentes no dia a dia da família e da criança. Estas atividades fazem parte do estabelecimento de valores e regras de respeito por cada um no sistema familiar.” Acrescenta ainda que a personalidade forte em algumas crianças é, de facto, uma realidade. “Na minha prática profissional encontro com alguma frequência pais extremamente cuidadosos e adequados no seu desempenho parental que se vêm confrontados diariamente com crianças muito afirmativas, com caraterísticas de personalidade extremamente exigentes para gerir a vida familiar quotidiana com harmonia, e que não reúnem as condições para enquadrar qualquer patologia do foro emocional. Serão crianças a quem será necessário fazer respeitar as regras e os limites com firmeza, condição para que se sinta segura, amada e respeitada. Com a clarificação e redefinição de algumas regras, afeto, paciência e persistência, na continuidade a criança acaba por aceitar e respeitar as regras estabelecidas”, conclui a especialista.

Carmen Saraiva

Artigo publicado em Delas (15/01/2018)

]]> 7 coisas a ter em mente para uma manhã sem stress https://blog.mikaelaoven.com/7-coisas-a-ter-em-mente-para-uma-manh-sem-stress/ Thu, 25 Sep 2014 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/7-coisas-a-ter-em-mente-para-uma-manh-sem-stress/

Como são as tuas manhãs lá em casa nos dias de trabalho e escola? Tudo flui ou as coisas têm a tendência de se transformarem numa grande fonte stress?
Se as manhãs são um momento de stress, antes de mais é bom rever quais as tuas expectativas em relação às rotinas matinais. Qual a situação ideal? O que queres é realista? Quando sabes o que queres podes refletir sobre o que tens e o que falta para criares uma situação melhor. Aqui vão umas dicas sobre como evitar as principais coisas que nos impedem de ter uma manhã a fluir!A noite
O fluir da tua manhã começa na noite anterior. A que horas é que se deita o teu filho? Se a criança não dormiu horas suficiente, a probabilidade de ter uma manhã cheia de stress aumenta exponencialmente. Sei que muitas vezes é desafiante conseguir que a criança durma as horas necessárias, mas é bom saber se a criança tem falta de boa educação, ou se tem falta de sono!
(Existem algumas tabelas diferentes mas pode-se resumir mais ou menos assim: menos de 1 ano -15 horas ou mais nos primeiros meses; 1-3 ano – 12 a 14 horas; 3-6 anos 10 a 12 horas:  6-12 anos 10 a 11 horas) A Conexão
Algumas crianças precisam de se reconectar com os pais de manhã. Essas crianças, se não existirem momentos de contacto próximo onde essa reconexão possa ser feita, podem (inconscientemente) inventar estratégias para prolongar a rotina matinal. Se calhar comem muito lentamente, demoram imenso a escolher a roupa e vestir-se, inventam coisas que ”têm” de fazer antes de sair, têm de ir à casa de banho mais de uma vez etc. Duas das melhores formas que conheço de satisfazer a necessidade de conexão dessas crianças são: 1. Ao acordar a criança fica ao lado dela alguns minutos. Faz umas festas na cabeça, dá um abraço, conversa um pouco. 2. Tomar pequeno almoço em família! Na minha família faz milagres!

O Tempo
Para muitos de nós parece que o tempo nunca é suficiente de manhã. Muito rapidamente é hora de sair e ainda temos tantas coisas para fazer e as crianças não colaboram. Há coisas práticas e pequenas que podemos fazer na noite anterior que nos vão ajudar imenso de manhã. O pequeno almoço pode ser preparado minimamente, os lanches, a roupa, as mochilas. Se quiseres mais tempo de manhã, prepara tudo o que for possível na noite anterior. Considera também se te estás a levantar suficientemente cedo. Levantam-se todos ao mesmo tempo? Será que te podes levantar 15-30 minutos antes das crianças para tratar das tuas coisas?

O Foco
Estou-me a referir ao teu foco. Eu sei que as manhãs que correm menos bem na minha família são sempre as manhãs em que eu perdi o foco. Comecei a ler algo que me prendeu a atenção, decidi espreitar mensagens ou e-mails, comecei a ver o facebook, decidi arrumar algo… e de repente olho para o relógio e vejo que já é tarde e começo a chatear os meninos que ainda não estão prontos… Quando perdes o foco, assume a responsabilidade que o perdeste e não culpes o teu filho pelo atraso.

As Instruções
Também sentes que ”tens” de dar muitas instruções de manhã? O primeiro passo para evitar isso é ter uma boa divisão de responsabilidades. Algumas pessoas até fazem um esquema, com palavras ou imagens para as crianças saberem quais as tarefas matinais a serem feitas. Tens aqui alguns exemplos, mas por favor, não utilizes isto como quadros de bom comportamentos com prémios e cenas, tu queres que o teu filho siga a rotina matinal porque é benéfico para toda a família, não para ele ganhar pontos e prémios.

A maioria das vezes o problema com as instruções que damos às crianças é que são difíceis para a criança entender ou por em prática. Em primeiro lugar, diz o que queres que a criança faça (”Não brinques com os legos agora!” vs ”Vai lavar os dentes e vê se encontras alguns bichinhos!”). Em segundo lugar, sê específico. O que é que ”Despacha-te!” quer dizer especificamente? O que é preciso a criança fazer para se conseguir despachar? Em terceiro lugar, considera se as instruções que estás a dar são demasiado longas ou complexas? Se calhar consegues dividi-las em partes? Queres qua as tuas instruções sejam sempre simples e claras.

Os Argumentos
Estás mesmo a ser honesto quando comunicas que têm pressa de manhã ou estás apenas a dizer que vão chegar atrasados para pressionar a criança? E será que é a criança que vai chegar atrasada ou és tu que queres chegar a horas ao teu trabalho? Se calhar é mais honesto dizer ”Eu quero sair agora para chegar a horas a uma reunião que marquei com o meu colega e não gosto de o fazer esperar.” do que ”Tu vais chegar atrasado à escolinha!”

A Responsabilidade
Para o teu filho querer colaborar contigo ele tem de sentir que tem alguma influência sobre o que está a acontecer e tem de sentir que confias nele. Se estás constantemente a chatear (”Já é muito tarde!” ”Tens de te despachar!” ”Vamos chegar atrasados!” ”Já te disse para lavares os dentes!”) a criança deixa de querer colaborar, deixa de sentir que confias nela e que ela é responsável. Deixa a criança assumir o máximo de responsabilidade e deixa-a também a viver as consequências se for possível.

Antes de acabar quero partilhar uma pequena história verídica:
Conheço uma mãe que já tinha tentado de tudo com a filha de 12 anos. Ela dormia suficiente, preparava coisas no dia anterior, o acordar era suave etc. O ritmo extremamente lento da filha da manhã prejudicava a família toda. Um dia a mãe decidiu que a consequência natural e lógica dessa lentidão era que a filha teria de chegar atrasada à escola, mas que não era justo o filho também chegar atrasado. Decidiu levar apenas o filho à escola, deixando a filha em casa. Quando voltou, a filha estava pronta, à porta da casa. Levou a filha, atrasada, à escola. No carro a caminho da escola, finalmente conseguiram ter uma conversa realmente produtiva sobre as responsabilidades de cada membro da família, das consequências que existiam e a mãe prometeu que nunca mais iria chatear a filha para se despachar de manhã. A filha achou que apenas precisava da ajuda da mãe para acordar. Assim concordaram e a mãe prometeu que nunca mais iria chatear a filha para se despachar de manhã. Se ela não estivesse pronta, a consequência seria a menina chegar atrasada à escola. A mãe percebeu que o que realmente estava em questão era a necessidade da filha de ter mais controlo sobre a sua vida e parece que a consequência que houve foi uma útil aprendizagem para ambas. Desde a conversa, a menina nunca mais chegou atrasada à escola.

Se neste ano lectivo queres criar uma rotina matinal mais em harmonia, então porque não começar com uma reunião de família? Mesmo crianças pequenas de 2-3 anos podem participar.
Ou marca uma conversa durante o jantar, ou no carro a caminho da escola. Levanta questões como:
Quais as responsabilidades de cada um? Qual o compromisso de cada um? O que podemos fazer na noite anterior? A que horas temos de nós deitar para dormir o suficiente? Que consequências naturais e lógicas existem? 

Como é que queremos que sejam as nossas manhãs?

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Os limites pessoais da Criança https://blog.mikaelaoven.com/os-limites-pessoais-da-criana/ Wed, 19 Feb 2014 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/os-limites-pessoais-da-criana/ Fala-se muito que as crianças precisam de mais limites. Não estou propriamente de acordo com essa ideia, acredito mais que as crianças precisam de saber quais os limites pessoais das pessoas que têm à sua volta e que precisam de conhecer alguns limites gerais que possam existir.

Mas não é disso que quero falar hoje. Quero falar dos limites pessoais das crianças. Porque as crianças também têm limites!

E estão nós constantemente a comunica-las, mas muitas, mesmos muitas vezes estamos a desrespeitar esses limites. E muitas vezes confundimos a expressão dos limites da criança com ”birras”.

Como mãe/pai posso ajudar o meu filho a encontrar formas saudáveis de exprimir os seus limites, mas antes de mais tenho de os respeitar. Há algumas áreas específicas que podemos explorar quando falamos nos limites das crianças.

Primeiro contacto com pessoas novas
Algumas crianças demoram mais tempo a começar a interagir com pessoas novas. Escondem-se atrás das pernas dos pais, ou fogem…. Desrespeitas os limites da criança quando a obrigas a cumprimentar uma pessoa

Contacto físico
Um limite que muitas vezes é desrespeitado pelos adultos. Algumas crianças gostam, e têm mais facilidade, com contacto físico do que outras. Algumas crianças gostam de abraços a qualquer altura, outras só se forem por iniciativa própria. Quando obrigamos uma criança a dar um abraço ou um beijinho quando ela não quer estamos a desrespeitar os seus limites! (e já agora, uma dica forte, principalmente para as meninas, saber dizer que não ao contacto físico quando não o queremos é extremamente importante!).

Barulho e ambientes confusos
Para algumas crianças muito barulho e muita confusão – faz-lhes confusão! Respeitas os limites da criança quando não a obrigas a participar neste tipo de ambientes.

A roupa
Quando obrigas o teu filho a vestir roupa que ele não quer vestir, estás a desrespeitar os seus limites pessoais. Pergunta-te porque é que é tão importante vestir o que tu escolheste. (Esta, às vezes, é um pouco desafiante para mim, que por exemplo tenho um filho que quer vestir colete todos os dias. 😉 )

Isto são só alguns exemplos e provavelmente consegues pensar em mais sozinho/a. A ideia aqui é que temos de estar atentos aos limites das crianças. Quanto mais uma criança sente que estamos a respeitar os seus limites, com mais vontade ela fica para colaborar connosco, mais ela respeitará os nossos limites, e, se calhar, até fica disposta a mudar os seus limites um pouco. Uma criança que sente que os seus limites (e a sua integridade) estão constantemente a ser desrespeitados vai provavelmente encontrar formas mais desafiantes para os defender (birras, gritos, agressão etc.). Por isso a questão dos limites pessoais da criança vale bem a pena explorar quando não conseguimos entender o que se está a passar.

Agora pensa bem, sabes respeitar os limites do teu filho?

(Este texto é um extrato do e-curso Parentalidade Consciente- 2ª edição inicia dia 31 de Março. Mais informação aqui!)

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DICAS PARA CONSEQUÊNCIAS LÓGICAS https://blog.mikaelaoven.com/dicas-para-consequncias-lgicas/ Mon, 30 Sep 2013 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/dicas-para-consequncias-lgicas/ Tanto nós adultos como as crianças temos às vezes dificuldade em distinguir o que queremos fazer (a nossa vontade) daquilo que temos/devemos fazer (as necessidades).

(Na realidade não acredito que haja nada que temos de fazer ou que devemos fazer, mas essa é outra conversa.)

Para ajudar as crianças a distinguirem entre vontade e necessidade podemos utilizar a forma ”Quando-Então/podes”.

”Quando colocares a tua roupa suja no cesto, então eu posso lavá-la”.

”Quando arrumares as coisas da mesa, então podemos ir ao parque”.

”Quando souberes nadar, então podes ir à piscina grande”.

Para utilizar consequências lógicas podes seguir os seguintes passos:

1. Pede ajuda à criança. 
Arranja um tempo para te poderes sentar com a criança, sem interrupções, sem televisor, telemóvel, jogos, trabalhos de casa etc. Tem de ser um tempo cujo objetivo é ter um diálogo autêntico e honesto. Também é importante ser um momento em que emoções como raiva ou frustração não estejam presentes, nem de uma parte nem da outra. Se não tiveres as condições certas, escolhe outro momento.

A conversa poderia ser assim:

– Inês, eu fico muito stressada com as nossas manhãs e gostava de evitar isso. Parece-me que tens dificuldade em te levantares de manhã. Quando não te levantas e adormeces outra vez, o que achas que deveríamos fazer?

Normalmente as crianças conseguem pensar em boas soluções. Deixa a criança pensar e não ajudes no início. A probabilidade de colaboração aumenta muito quando a criança se sente parte do processo e quando a opinião dela também conta e é respeitada.

2. As consequências devem ser lógicas
Será que as consequências têm uma ligação lógica ao comportamento/a situação? (podes ver aqui a diferença entre consequências lógicas e castigos, onde encaixa a consequência escolhida?)

3. Apresenta escolhas que são viáveis para ti
Se desde o início sentires que não vais consequir deixar a roupa do teu filho espalhada no seu quarto sem a arrumar e lavar, então não apresentes essa alternativa. Se sentires que a hora do conto a noite é muito importante para ti e a vossa relação, então não apresentes como consequência retirar a hora do conto.

4. Esteja alinhad@ com o que definiram.
Ou seja, não digas: ”Lembras-te que combinamos que eu só lavava a tua roupa se a pussesses na cesta… sabes, a próxima vez não lavo mesmo.” Perdes a tua credibilidade e vai ser cada vez mais desafiante. Por outro lado podes mudar de ideias, se já não te sentires bem com o que foi decidido podes dizer ”Estive a pensar e acho que não faz sentido…” ou ”Estive a pensar e gostava….”. Mudar de ideias não tem mal nenhum! (ou contrário do que muita gente diz! 😉 )

5. Sem expectativas
Procura evitar ter a expectativa de que a criança vai seguir o que foi decidido sem testar a validade/seriedade. Quando a criança testa está a aprender sobre si, sobre ti e sobre o mundo.

6. A segunda oportunidade
Se temos como objetivo o desenvolvimento da responsabilidade temos de deixar as crianças aprenderem com os seus erros. Ou seja, após ter experienciado uma consequência, podemos começar de novo. As emoções e atitudes presentes são amor, compaixão e carinho. Se a criança ”falhar” não precisa de zanga e desilusão.

Se as coisas estiverem a correr bem, comunica isso à criança, não com elogios, mas com feedback genuíno e pessoal. Conta-lhe sobre aquilo de que estás a gostar, descreve o que sentes e conta porquê!

Por exemplo:
”Fiquei mesmo contente hoje quando cheguei a casa e vi que tinhas posto a roupa toda para lavar. Gosto quando as coisas estão mais organizadas.”

”Sinto-me me muito mais tranquila quando utilizas o capacete quando andas de skate. Assim sei que tens a cabeça protegida se caíres.”

”Fico tranquila quando tomas o pequeno-almoço, assim sei que vais ter energia suficiente para aguentar a manhã toda na escola.” 

Faz sentido? Então, experimentamos?

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O Mundo das Consequências https://blog.mikaelaoven.com/o-mundo-das-consequncias/ Wed, 25 Sep 2013 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/o-mundo-das-consequncias/ Muitas pessoas, pedagogos, pais, profissionais da educação… falam sobre consequências. ”O comportamento tem que ter consequências!” ”Ele tem que saber/sentir as consequências!”

Em geral, estou de acordo. Mas quando falamos em consequências acredito ser importante saber que tipo de consequências pode haver, e se fazem sentido ou não (e se têm o ”efeito” que se deseja).

No fundo existem três tipos de consequências.

  1. Consequências naturais. 
  2. Consequências lógicas.
  3. Castigos

Consequências Naturais
Consequências naturais são as consequências que acontecem sem a intervenção de ninguém.

Exemplo: O Miguel quer calcar na poça de água, mas está sem galochas. 
Consequência natural: O Miguel molha os sapatos e tem de andar com os pés molhados.

Exemplo: A Sara não se quer levantar de manhã para ir a escola.
Consequência natural: A Sara vai chegar atrasada.

Exemplo: o João não quer comer à hora do almoço.
Consequência natural: Vai sentir fome antes do lanche.

Para as consequências naturais se poderem transformar em momentos de aprendizagem (muito valiosos), temos de evitar salvar a criança. E também temos de evitar emitir comentários como ”Bem te disse que estava frio”, ”Eu avisei que te ias molhar” etc. Em vez disso podemos servir de suporte empático e demonstrar a nossa compaixão, sem resolver a situação e sem criticar.

Ao Miguel podemos dizer: ”Ó pá, ficaste mesmo molhado. Qual a sensação dos pés lá dentro?”

À Sara podemos dizer: ”Chegaste atrasada, foi? Mas conseguiste apanhar o segundo autocarro?”

Ao João podemos dizer: ”A tua barriga até está a protestar. Tanto barulho! Se calhar podes beber um copo de água para ela aguentar até ao lanche?”

Claro que há situações em que nós adultos não podemos deixar as consequências naturais acontecerem. Por exemplo:

  • quando as consequências poderiam ser muito graves (criança corre atrás da bola que atravessa a estrada);
  • quando a consequência irá acontecer passado muito tempo (não quer lavar os dentes, quer muitos doces etc).;
  • quando uma terceira parte será afetada (jogar à bola ao lado das janelas do vizinho, partir os brinquedos de um amigo etc.)

Nestes casos provavelmente será melhor desenvolver consequências lógicas.

Consequências Lógicas
Uma consequência lógica acontece quando alguém intervém na situação e decide qual a consequência que vai haver. Utilizamos este tipo de consequências para ajudar a criança a aprender sobre responsabilidade e a desenvolver a mesma. Uma consequência lógica é uma consequência ligada à situação ou ao comportamento de uma forma lógica. Nunca pode ser uma reação de um adulto zangado e frustrado. Não existe para castigar a criança mas para contribuir para o seu desenvolvimento emocional e comportamental.

É muito importante diferenciar consequências lógicas de castigos.

Consequência lógica
Tem ligação lógica ao comportamento/situação
Promove responsabilidade
Deixa a criança fazer escolhas de acordo com as suas experiênciasDeixa a criança ser o dono do problema e da sua solução

Castigo
Não tem ligação lógica com o comportamento/situação
Promove obediência
A criança fica dependente de outra pessoa para saber o certo e o errado
Faz a criança ter medo e muitas vezes negar o que fez

Exemplos:
A Rita parte a janela do vizinho.
Consequência lógica: A Rita tem de falar com o vizinho e procurar uma solução
Castigo: A Rita não pode ver televisão durante duas semanas. 

O Henrique não quer lavar os dentes:
Consequência lógica: O Henrique não vai poder comer doces nenhuns.
Castigo: O Henrique não vai ter história à noite. 

A Eva quer ficar a ver televisão durante mais 20 minutos para ver um programa até ao fim.
Consequência lógica: Não vai ter história ao deitar.
Castigo: Não vai poder ver mais o programa. 

A Ana tem muita dificuldade de se levantar de manhã.
Consequência lógica: A Ana vai ter de se deitar meia hora mais cedo.
Castigo: A Ana não vai poder utilizar o computador.

O Rui e o Tiago brincam com o papel higiénico na casa de banho da escola.
Consequência lógica: O Rui e o Tiago vão ter de arrumar e limpar a casa de banho.
Castigo: O Rui e o Tiago têm de ficar na sala da Diretora durante a tarde.

Quais os problemas com os castigos, talvez perguntes? Se uma única frase chegasse seria:

Não funcionam! Tanto castigos como crítica diminuiem a auto-estima da criança e ela sente que não tem valor para outras pessoas. Facilmente cria tristeza e raiva (que pode ser exprimida ou não) e muitas vezes tem o efeito oposto daquilo que é o nosso objetivo como pais. A nossa ideia aqui é ajudar a criança a desenvolver responsabilidade, mas quando utilizamos castigos a probabilidade de a criança vir a evitar responsabilidade para se proteger é muito alta. Há criança que escolhem mentir, não porque são más ou realmente mentirosas, mas porque estão a proteger-se a si e à sua integridade.

Agora se calhar também te perguntas como podes então utilizar as consequências lógicas? Espera mais alguns dias e podes vir aqui ler outro artigo!

Se quiseres ler mais sobre este tema:
Já escrevi sobre castigos aqui.
E recomendo vivamente este artigo (em inglês).
]]> Viva as birras! https://blog.mikaelaoven.com/viva-as-birras/ Wed, 06 Jun 2012 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/viva-as-birras/ Como medes o teu “sucesso” como mãe/pai? Quando os teus filhos estão bem comportados? Quando os teus filhos estão felizes? Quando estão alegres e cheios de boa energia? E quando se “portam mal” ou estão chateados ou tristes, como te sentes como mãe/pai?

Muitas vezes quando o estado emocional do nosso filho não está no registo positivo começamos a culpar alguém. Muita gente culpa os filhos, e alguns pais culpam se a si próprios. E o que acontece, num caso e no outro, é que quase à força, tentamos (e obrigamos) a criança a sair do seu estado negativo. E muitas vezes a razão (que é difícil admitir) é para nós nos sentirmos como bons pais. Que estamos a fazer um bom trabalho como pais.
Um dos momentos mais desafiantes que temos como pais e lidarmos com as “birras” dos nossos filhos. Acredito que a grande maioria dos pais nem se importavam de nunca ter que lidar com uma birra. Verdade? As birras fazem-nos sentir frustrados, irritados, desamparados, tristes, zangados…. E se não conseguirmos resolver a birra, sentimo-nos maus pais….
Mas sabem o que eu digo. Viva as birras! Ajudam-me aprender mais sobre os meus filhos, fico a perceber que algo na nossa relação não está bem, ponho a minha congruência a prova e temos, eu e a criança, uma oportunidade para melhorarmos a nossa relação e crescer!

Essa vontade de sermos pais bem-sucedidos, leva nós a aplicar estratégias e até fazer cursos, com a seguinte mensagem:

“As birras podem ser destrutivas de todo um bem-estar familiar. Simples chamadas de atenção, desafios à autoridade parental ou reflexos de inconsistência na aplicação de regras e limites por parte dos cuidadores, o facto é que não sendo geridas correctamente vão determinar um crescimento com dificuldades progressivas na adaptação aos modelos sociais que irão acolher os seus filhos pela vida fora. Neste pequeno seminário poderá aprender estratégias eficazes para sociabilizar os seus filhos tranquilamente, garantindo-lhe um futuro em que as relações interpessoais lhe possam ser favoráveis.” (retirado dum site de um grande Gabinete de Psicologia que oferece cursos à pais)

Assim a primeira vista, para alguns muito provavelmente pode fazer muito sentido. Mas pergunto-me, se nos limitarmos a ver as birras desta forma, que tipo de adultos vamos ter no futuro? Vamos realmente ter pessoas com “relacionamentos interpessoais favoráveis”, ou vamos ter pessoas emocionalmente reprimidas (com todas as suas consequências)? Vamos ter pessoas aptas para lidarem se a si próprias e ao nosso mundo, ou pessoas criadas para o industrialismo (uma era que já passou)? Vamos ter pessoas que sabem falar do que sentem no coração com facilidade, ou pessoas que desenvolvem patologias psicológicas?…

E agora dizes tu, pronto, isto é tudo muito bonito, mas como lido então com uma birra!? Aha, boa pergunta… e a resposta é…. Depende!

Em primeiro lugar costumo recomendar fazer um “troubleshooting” (aquele tipo de pesquisa que os informáticos fazem quando procuram qual o erro no pc… ;o)), começando pelas seguintes perguntas:

A criança tem sono?
A criança tem fome?

As respostas a essas duas perguntas já te dão automaticamente a estratégia a seguir…

Depois, pensa bem nas birras que o teu filho faz. São recorrentes? Quando acontecem? Sempre a mesma hora? Na mesma situação?

No meu caso por exemplo, quando vou buscar o meu filho de 4 anos à escolinha, sei que a probabilidade de vivermos uma birra no carro é… no mínimo grande. Ele normalmente está a beira da exaustão quando entra no carro, e cansaço é mesmo o “trigger” dele para birras. Depois, qualquer coisa pode-se tornar um “problema”, falta de agua, muito sol, calor, frio… seja lá o que for. Para minimizar a probabilidade de uma birra sei que posso fazer certas coisas. Ter água no carro, uma protecção para o sol, por exemplo. E se me tiver esquecido de água, posso explicar isso antes de entrar no carro e assegurar que ele beba água na escola antes de sair. Ou seja, procuro ser pro-activa porque conheço bem o padrão do meu filho.

E quando acontecer uma birra, o mais importante é eu manter a minha calma. Sem dizer muito, ouço o que ele tem a dizer. Não vale a pena estar com muitas explicações, no meio da birra o cérebro dele não liga nada a isso. Procuro dizer coisas como “Ouço/vejo que estás muito chateado. Daqui há 5 minutos já posso parar e vamos resolver isso…”. Procuro me manter o mais presente possível (e as vezes acaba por adormecer).

Numa situação em que estamos em casa mantenho-me por perto e demonstro empatia. As vezes pode ser preciso ajudar a criança a fazer uma escolha, por exemplo… Se a tua filha escolheu um vestido para a escola, mas quando a queres ajudar a vestir, já não quer aquele vestido. Quer outro. Deixas escolher outro. Se não parar aí, é muito provável que a criança tenha frustração por libertar. Nessa situação, não ajuda continuar a procurar vestidos, procura dar a criança a escolher entre os dois primeiros vestidos. “Gostava que escolhesses um de estes dois vestidos”…

E em lugares públicos, faço tudo igual, procurando primeiro encontrar um cantinho mas privado (o que em situações extremas pode querer dizer que tenho que pegar na criança aos berros, desagradável, mas no meu ver compensa ;)).

Mas se eu aceitar estas birras, que mensagem estou a passar? Aceitando este tipo de comportamento a criança vai achar que é aceitável? Não é melhor por a criança de castigo ou arranjar uma consequência dura para ela aprender?

Quando a criança está no meio de uma birra o cérebro está em “modo birra” quer dizer que a criança não tem acesso nenhum a “razão”, não sente empatia… e falando com ela, procurando chama-la a razão, criticando o comportamento, dizendo qual o comportamento aceitável, falando em consequências e castigos, não estamos a ajudar a criança a ter acesso às partes do cérebro que a vão ajudar a acalmar. É normal uma birra demorar 5-15 min. Cientistas descobriram que as birra até têm um ciclo previsível, e sabias que parece que quanto mais nos esforçamos para parar a birra, mais a prolongamos? Se pensares no teu próprio filho imagino que consigas ver um padrão. Podes ver um exemplo aqui.
(não sou a maior fã deste vídeo, mas fica-se com uma ideia)

Não há provas absolutamente nenhumas, que castigos e consequências sejam boas ao médio e longo prazo. A curto prazo, sim, há muitas provas. Mas que mensagem estou a passar, o que é que o meu filho aprende, seu eu utilizar este tipo de estratégias para uma birra?

Entre outras coisas, estou a passar a mensagem que está algo de errado com o meu filho. Como a criança não consegue separar a pessoa do comportamento ela leva tudo ao peito, o que torna-se devastador para a auto-estima. Também passo a mensagem que eu como mãe/pai, não me preocupo com o que ele sente. Passo a mensagem, que não vale a pena exprimir os meus sentimentos e as minhas emoções (porque o meu pai/a minha mãe não só não se interessa, como não gosta de mim quando o faço). Ainda pior para a auto-estima. Como pai/mãe perco uma grande oportunidade de dar uma lição de empatia (e se a criança não sentir a empatia dos outros em situações para ela emocionalmente importantes, vai ter dificuldade em sentir empatia no futuro). E além dessas coisas não estou a ajudar o meu filho a lidar com as emoções fortes e a encontrar estratégias alternativas.

A frustração tem de sair, e com o tempo e a tua ajuda a criança vai encontrar outras formas de aliviar a tensão. A partir dos 3-4 anos podemos conversar com as crianças sobre as suas grandes birras, num momento completamente desligado da birra. Pede para ela contar o que aconteceu, ajuda se achares necessário. Faz perguntas, procurando dar palavras às emoções que a criança demonstrou, faz ligações entre os acontecimentos. É extremamente importante não fazer qualquer juízo de valor… só vale feedback meramente descritivo!

“Eu não te deixei comer mais chocolate e tu ficaste muito zangado comigo, foi?”

E dependendo da criança também podemos perguntar:
“E o que achas que poderias ter feito em vez de X?” 

E agora o próximo passo, algumas vezes, a birra provavelmente nada tem a ver com aquele chocolate, não é?… Se quisermos expandir o “troubleshooting” e dar mais um passo no caminho de sermos pais cada vez mais conscientes e atentos, a fase seguinte é refletirmos num outro nível sobre as birras…
Que necessidade (não preenchida) estará por trás da birra que o meu filho está a fazer? Por exemplo, os meus filhos estão num estado emocional mais fragilizado quando o pai está muitas vezes fora de casa, ou quando eu não lhes estou a ver bem.
Mas isso, fica para outro post.

(Ahhh, mas eu já pus o meu filho de castigo quando ele faz birras, já gritei com ele, já disse que ele se estava a portar muito mal e…… e agora? Calma! Felizmente nunca é tarde para mudarmos as nossas estratégias! O nosso cérebro, tem algo chamado plasticidade, novas ligações neuronais são criadas a toda a hora, e se tu mudares as tuas estratégias e passares a utilizar estratégias mais empáticas, são essas que terão a maior influência no teu filho. E quanto mais cedo, melhor!)

Boas birras!

**************
Se quiseres saber mais sobre o funcionamento do cérebro da criança durante por exemplo uma birra (um conhecimento muito muito útil!), aconselho a leitura do “The Whole Brain Child” de Daniel Siegel e Tina Payne Bryson.
]]> Violência é violência https://blog.mikaelaoven.com/violncia-violncia/ Tue, 29 Nov 2011 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/violncia-violncia/

Noutro dia quando fui buscar a minha filha na escola, ela entrou no carro, e disse: “Mamã, tenho que te contar uma coisa.” O que ela me contou foi um pequeno filme de terror, que basicamente envolvia uma auxiliar com muito poucos recursos, e um menino agredido.

Ontem, quando fui buscar o meu filho a escola a primeira coisa que me disse foi: “Anda cá mamã, quero te contar uma coisa”… e contou-me outra história de violência. Desta vez muito menos grave em termos físicos. Em psicológicos não consigo avaliar.

E há algum tempo atrás assisti a cena de um pai a bater no filho, como castigo pelo facto de o filho ter batido num amiguinho e ao mesmo tempo dizendo “Não se bate nos meninos!” (o menino deve ter tido um curto circuito?)

Acho que é altura de falarmos de violência. Sim, porque não há outra palavra… palmadas, surras, sovas, sapatadas, bofetões… são todas palavras que utilizamos para nós sentirmos melhor e justificar violência. E violência é violência, e da violência nasce mais violência.

Sou do país que foi o primeiro no mundo a criar uma legislação contra violência física às crianças. Foi em 1979. Se alguém ainda não sabia, uma lei destas também existe em Portugal, desde 2007. Só para deixar claro que é ilegal, embora muitas vezes socialmente aceite, bater em crianças.

Uma pessoa que bate crianças, sejam elas os próprios filhos ou os filhos dos outros, normalmente faz isso por alguma razão e um objectivo para ela muito óbvia. Ela, dentro da sua cabeça, provavelmente está a utilizar uma estratégia que ela acha boa para fazer a criança obedecer. Há muitos problemas com esta violência. Tanto para a criança como para o agressor. Vou discutir alguns.

Em primeiro lugar, pensando num assuntos que já discuti, como recompensas ou castigos, uma pessoa que utiliza violência para se impor, nunca está a ganhar respeito. A única coisa que “ganha” é o medo que a criança sente. A criança nunca irá respeitar um agressor, terá medo dele. Há uma grande diferença entre ter autoridade e exercer autoridade. Uma pessoa que bate, nunca terá autoridade, está unicamente a exercê-la.

De acordo com o Jesper Juul, a violência exercida sobre uma criança terá sobretudo quatro tipos de resultados.

– Emocionalmente a criança irá apagar a ansiedade, a dor e a humilhação da sua mente, e lembrar-se da sua infância como relativamente feliz.

– Mentalmente vai ficar da opinião que violência na educação das crianças é justificada quando as crianças assim merecem.

-Existencialmente e pessoalmente vai sofrer de baixa auto-estima (o que não quer dizer baixa auto-confiança), e vai ter dificuldade em respeitar os limites pessoais dele próprio e das pessoas a sua volta. É provável que tenha um comportamento auto-destrutivo.

-Fisicamente também terá sintomas, como dores e tensão nas costas, barriga e peito. Sintomas que serão mais notáveis no contacto com os mais próximos.

A gravidade destes resultados dependerá de uma série de outros factores. Se além da violência houver problemas na família como toxicodependência, instabilidade emocional, resultados na escola etc. Além de mais graves, os resultados notam se mais cedo e vamos ver coisas como dificuldades de aprendizagem, comportamento “inadequado”, criminalidade, experiências com álcool e drogas, vandalismo….. Tudo, resultado do facto de os pais, através dos seus actos de violência, terem ensinado a criança que não é necessário respeitar e cuidar da sua própria integridade física e psicológica, nem das outras pessoas.

E então, não costumo bater no meu filho, nem quero nada disso, mas já aconteceu passar-me da cabeça, já fiquei desesperada, perdi o juízo e dei um bofetão…. Há alguma coisa que posso fazer para minimizar o efeito do meu comportamento?

Todos nós já fizemos coisas “erradas”, e certamente ainda estão muitas por fazer. O primeiro passo é tomarmos consciência do nosso comportamento. O Jesper Juul sugere que há uma coisa que se pode fazer para minimizar o efeito da violência assumir total responsabilidade pelo que aconteceu, emocionalmente e verbalmente. Após a situação, restabelecer o contacto com a criança e dizer: “Estou muito triste por te ter batido. Quando te bati, pareceu-me a coisa certa. Não foi. A culpa é inteiramente minha e quero te pedir desculpa por isso.”
 
Assumir responsabilidade total. Sempre. Pelos nossos actos todos. 

Alguém se calhar preferia dizer: “Anda aqui querido… desculpa, desculpas-me?… não foi de propósito… a mamã está triste por ter feito aquilo, nunca se vai repetir, prometo, vamos esquecer isso agora”. Em primeiro lugar, essa versão não tira a culpa da criança uma vez que a mãe não assume a responsabilidade (“não foi de propósito”), em segundo é pedido a criança para desculpar a mãe (o que não é a mesma coisa que pedir desculpa) e no fim é feita uma promessa que por  falta de auto-conhecimento, certamente será quebrada.

Além dessa versão temos também a versão mais pedagógica que procura dividir a culpa.… “Estou muito triste, peço desculpa, não sei o que aconteceu… mas também tens que perceber que quando fazes assim, a mãe….bla bla bla” Uma versão que vai reforçar o sentido de culpa tanto na criança como no adulto.
Cada vez que escolhemos não assumir responsabilidade total pelos nossos actos estamo-nos a decepcionar a nos próprios e a por um peso em cima dos ombros das pessoas a nossa volta. E isso só pode afectar as nossas relações negativamente.

Na relação entre adultos e crianças, violência é sempre a responsabilidade do adulto. Também quando é a criança a bater.

Agora, imagina, estás no teu local de trabalho. Uma reunião está prestes a começar e alguns dos participantes, incluindo tu, estão a conversar. O chefe já pediu que se “calassem”, mas não lhe ligaram muito. Após a segunda ou terceira tentativa, tu ainda estás cheio de coisas para dizer (e além disso, ainda não percebeste o porque da reunião e a forma que o chefe te pediu, não foi nada simpático) e continuas. O chefe vai para a tua beira pede a tua mão. Tu das lhe a mão, e ele, pimba, bate-te…

Em Portugal e em todo o mundo fala se da forma que os adolescentes se estão a “portar”, que são violentos, que não sabem respeitar a autoridade, que são irresponsáveis etc. e políticos junto com muitos pais, falam em soluções envolvendo castigos e penalizações mais graves. Eu digo como o meu guru Jesper:  

“Isso não é só absurdo- é mais ou menos tão responsável e esperto como se sugerissem que o défice do orçamento do Estado fosse financiado com o dinheiro de Monopólio das crianças.” 

Os adolescentes vão se sentir cada vez pior… e o cenário só vai mudar quando os adultos assumem a responsabilidade pela violência física, e psicológica, que utilizam na sua relação com as crianças.

Se queremos mudar o mundo um dos principais passos é mudarmos a forma como tratamos as nossas crianças. E isso, acho eu, é urgente.

Lembra-te, violência é sempre violência…

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A palavra mais feia em português… https://blog.mikaelaoven.com/a-palavra-mais-feia-em-portugus/ Tue, 15 Nov 2011 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/a-palavra-mais-feia-em-portugus/ Alguma vez puseste o teu filho de “castigo”?

Costumo dizer que “castigo” deve ser a palavra mais feia que existe na língua portuguesa…

Quando a minha filha mais velha tinha a volta de 3 anos houve um ou outro momento em que ela se “portou MUITO MAL.”… (no meu mapa mundo naquela altura). Foram momentos em que eu como mãe estava completamente sem recursos e escolhi experimentar o “método” de time-out (basicamente a mesma coisa que castigo), e pus a minha filha no seu quarto, sozinha, com a ordem de só sair quando ela se ia “portar bem”…. Só ao escrever estas linhas sinto-me cheia de remorso… e a mesmo tempo, muito grata por ter aprendido, através dos meus filhos, que este “método”, pode funcionar ao curto prazo, mas que no fundo, não resolve absolutamente nada. Pelo contrário.

Só piora.

Pode-se dizer muita coisa sobre o castigo, aqui vão as minhas reflexões de hoje.

Utilizar o castigo (sentar numa cadeira, fechar no quarto, ficar num cantinho etc.) não só desgasta o relacionamento com o nosso filho, como também danifica o seu desenvolvimento pessoal e a sua auto-estima. O castigosepara o comportamento do momento, e trata unicamente dos sintomas, e nunca a causa!

Quando te separas da tua criança numa situação de conflito, estás a demonstrar que a vossa relação não é importante. O teu filho tem comportamentos “inadequados” principalmente quando ele te necessita mesmo muito, e a vossa relação é extra importante. A criança precisa de ser ouvida, precisa de sentir que te estás a preocupar com aquilo que ela sente, e que queres entender e ajudar. Ela precisa de se sentir segura para conseguir exprimir a causa da sua reacção.

Mas o castigo funciona!

Com toda a honestidade, a razão porque o castigo é tão popular é porque até parece funcionar! Sim, a curto prazo! Quando a criança é posta de castigo ela para com o comportamento por algum tempo. Claro.

E quantas crianças conheces que são repetidamente postas de castigo e continuam a ter um “mau” comportamento? (Será que é altura de mudar de estratégia!?!……)

Crianças, principalmente com menos de 6 anos, vivem no momento! São impulsivas e rapidamente se irão esquecer o porque de terem sido postas de castigo. Ao utilizar o castigo estamos a desconectar a criança do comportamento que queremos desincentivar!

Aliás, os cérebros das crianças novinhas nem sequer estão aptas para entender o conceito de consequências! E são, biologicamente, incapazes de entender causa e efeito em relação ao seu comportamento. Ou seja, qualquer tentativa de disciplina ou castigo não serve para nada, pelo contrário….

Fácil, sim, mas só trata o sintoma! 

O castigo é um ótimo exemplo de um método quick-fix que muitos pais e educadores utilizam porque é rápido e fácil, e “funciona”. No nosso dia-a-dia super atarefado, com tanta coisa para fazer e tratar, pode parecer uma boa opção… Só que ao escolher o castigo estamos a perder uma grande oportunidade de conexão com o nosso filho.

Quando o pequeno João repetidamente atira a comida para o chão ele está, provavelmente, a querer comunicar alguma coisa… Em vez do castigo podemos escolher ouvir o João. Demora mais tempo, certamente, mas garanto que vale a pena!

Também te posso garantir que existem alturas em que, por momentos, me apetece fechar os meus três filhos num quarto e fechar a porta a chave… Vezes em que me sinto completamente sem recursos para lidar com qualquer tipo de “comportamento exigente”…. (que as vezes pode ser vezes 3… ou 4 se contarmos também o meu marido!). A forma que encontrei para me equilibrar nestes momentos é de eu própria fazer o tal time-out. Um minuto, sozinha, com os olhos fechados, respirando profundamente, costuma ser suficiente.

Para acabar… imagina que estás no teu local de trabalho. O teu chefe acabou de fazer um novo curso de liderança no qual aprendeu diversos métodos… É no final do mês e altura de entregar um relatório mensal. Estás exausto, cansado, com poucos recursos. O teu chefe está o dia todo a chatear por causa do relatório. Estás completamente sem vontade e não consegues acabar o relatório a tempo, são já 8 da noite… e quando o chefe se apercebe grita: “Agora voltas para o teu gabinete para pensares melhor no teu comportamento e só podes sair quando tiveres acabado o relatório!”…..

Lembra te que crianças necessitam mais de atenção afetuosa quando a parecem merecer menos….  

(Se quiseres ler mais sobre este tema encontras muito na Internet, principalmente em inglês, aqui http://www.awareparenting.com/timeout.htm podes encontrar um artigo bastante interessante com várias referências científicas.) ]]> Sistemas de Recompensa funcionam!…. ou não! https://blog.mikaelaoven.com/sistemas-de-recompensa-funcionam-ou-no/ Mon, 07 Nov 2011 18:55:00 +0000 https://blog.mikaelaoven.com/sistemas-de-recompensa-funcionam-ou-no/ Noutro dia quando fui buscar a minha filha na escola (ela anda no 2º ano) ela, com algum entusiasmo, começou a descrever um sistema de recompensas que a professora de artes plásticas tinha montado para a turma. Não vou entrar em grandes pormenores, mas resumindo, quem se “portasse muito bem” durante um mês inteiro, iria receber um prémio…. No fim da conversa, a mina filha perguntou-me “Oh, mamã, o que achas disto?” “O que achas que eu acho, filha?” A Liv ficou calada durante um segundo ou dois e depois disse “Eu acho que tu não gostas…”.

Pois não, não gosto, e não só não gosto como acho contra produtivo e problemático.

Sistemas de recompensa não funcionam? Funcionam!!! Tanto com crianças como com adultos… mas tudo que funciona hoje é bom amanhã?

Há muitas provas científicas que demonstram que recompensas não afectam a motivação interna. Até há estudos que demonstram que recompensas externas até diminuem a motivação interna! (por exemplo: Deci, E et al. A meta-analytic review of experiments examining the effects of extrinsic rewards on intrinsic motivation. Psychological Bulletin. Vol 125(6), Nov 1999 e o Daniel Pink também fala disto no Drive).

Quando falo de sistemas de recompensa refiro me a sistemas mais elaborados que são utilizados para conseguir um comportamento/rotina nova. Em casa por exemplo para a criança começar a adormecer sozinha, ou os quadros na escola com as estrelinhas ou caras felizes para os meninos que se “portam bem”. Mas também falo das recompensas “espontâneas”, tipo “Se apanhares os teus brinquedos dou-te um gelado.” As duas situações são problemáticas por várias razões, vou falar de algumas….

O propósito
Muitas vezes quando se trabalha com estes sistemas nos infantários e nas escolas (e também em casa) faz se uma tabela onde é fácil visualizar a “pontuação” da criança. Por um lado podemos dizer que a criança tem poder de influência sobre o sistema, como consegue entender e ver que se fizer X recebo Y. E isso cria o propósito. E o propósito é o grande problema. O propósito para a criança é receber O Prémio. É isso que queremos ensinar? Queres que a criança faça algo porque ela quer fazé-lo (e entende que é importante fazer essa coisa) ou porque recebe uma Barbie?

O guia interior
Ao serem muito expostas aos sistemas de recompensa, ou pequenas recompensas “espontâneas”, as crianças deixam de ouvir “o seu guia interior”, não ouvem a própria vontade, e começam a agir geridos por recompensas externas.

Uma professora com quem falei uma vez sobre estes assuntos, contou-me que um menino na turma dela chegava sempre atrasado a sala depois dos intervalos. Para motivar o menino a chegar a horas, ela montou um pequeno sistema que significava que se o menino chegasse a horas após todos os intervalos durante 10 dias seguidos, ele ia ser delegado da turma durante o mês seguinte (uma coisa que o menino ansiava ser). Certo dia o menino estava a brincar com uma menina no recreio. A menina ficou presa entre duas pranchas ao mesmo tempo que se ouvia o toque de entrada. A professora estava a porta a assistir a cena… A menina pediu ajuda ao menino mas ele já estava a correr e gritou “Não posso ajudar, tenho que entrar!”. A professora percebeu que, com o seu sistema de recompensa (que tinha as melhores intenções!) tinha criado uma situação em que o menino não quis ajudar a amiga por causa do prémio!

Enquanto a criança é pequena, nós como pais até conseguimos controlar a situação mais ou menos, mas ao crescer se calhar um dia o teu filho vai estar a frente de um amigo que lhe diz: “Dou te um Beyblade se baixares as calças ao João”…. Se… ou quando, esse dia chegar, queremos que o nosso filho saiba ouvir o seu guia interior. Se esse guia tiver sido calado com recompensas e prémios… a criança vai se guiar pelo prémio que irá receber…..

Dependência da Recompensa
Quando os nossos filhos estão expostos aos sistemas de prémios e recompensas nas escolas (e em casa) estamos a criar pequenos dependentes de validação externa. Noutro dia falei com uma mãe que me contou que o filho, o Tiago, tinha chegado a casa muito, muito triste. O Tiago tinha partilhado a sua fruta com um menino da turma, mas como a professora não tinha visto, ele não recebeu nenhum “lindo menino” e pior ainda, ficou sem estrelinha pelo “bom comportamento”! E em conversa com a mãe percebi que este o Tiago tem uma fraca auto-estima e está completamente dependente de validações externas (por que foi habituado a um sistema de prémios e elogios). O rapaz não se sabe sentir bem com as coisas “boas” que faz… só se sente bem se alguém elogiar o comportamento dele de alguma forma. E podemos sempre especular se o rapaz, ao partilhar a fruta, estava a ouvir o seu guia interior, ou se era a estrelinha a chamar..….

A criança começa a fazer a mesma coisa com irmãos, amigos (…e com os pais)
Após algum tempo qualquer pai que utiliza sistemas de prémios e recompensas (ou que tem filhos que andam em escolas onde isso é utilizado…), vai notar que a criança começa a reproduzir o sistema. O meu filho do meio é um óptimo exemplo disso, que neste momento está a testar este sistema de manipulação com os pais, os avós, os irmãos…. (Aliás, ele é tão bom que a escolinha dele merece uma conversa comigo!… ;o))

E vejo crianças a faze-lo em todo o lado…. Noutro dia no Jumbo…

-Mamã! Se me deres aquele Ursinho de peluche dou te um beijinho!
-Não. Tens que pedir ao Pai Natal!
-Se não me deres o Ursinho nunca mais te dou beijinhos!

A criança começa a negociar os prémios
Nos sistemas de recompensas vai mais cedo ou mais tarde haver inflação… a criança começa a negociar… Quero 3 estrelas, não uma, para apanhar os meus brinquedos. Rapidamente ensinamos as crianças a pensar “o que eu tenho a ganhar com isso?”….

Resumindo e concluindo…
Antes de tu como mãe/pai ou educador decidires utilizar um sistema de recompensa pergunta-te qual o teu objectivo. O que queres ensinar a criança? Que tipo de adulto queres ajudar a desenvolver? Queres uma criança que entende que pode fazer o que os outros dizem desde que ele tenha algo a ganhar com isso? Ou queres que o teu filho se torne num individuo independente e responsável?

E para acabar,  pensa em ti próprio. Se tiveres tido uns dias muito stressantes no trabalho, ou se estás um pouco triste com a vida em geral… chegas a casa ou ao trabalho irritado e com pouca paciência…. O que preferias: Um autocolante bonito se te “portares bem” (e ficar de castigo se não o fizeres..) ou ajuda para mudares a tua situação? ]]>